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Home » Poesias Domingo, 26 de Maio de 2019







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por: Carlos Drummond de Andrade

Amor pois que palavra essencial
comece esta cano e toda a envolva.
Amor guie o meu verso, e enquanto o guia,
rena alma e desejo, membro e vulva.

Quem ousar dizer que ele s alma?
Quem no sente no corpo a alma expandir-se
at desabrochar em puro grito
de orgasmo, num instante de infinito?

O corpo noutro corpo entrelaado,
fundido, dissolvido, volta origem
dos seres, que Plato viu completados:
um, perfeito em dois; so dois em um.

Integrao na cama ou j no cosmo?
Onde termina o quarto e chega aos astros?
Que fora em nossos flancos nos transporta
a essa extrema regio, etrea, eterna?

Ao delicioso toque do clitris,
j tudo se transforma, num relmpago.
Em pequenino ponto desse corpo,
a fonte, o fogo, o mel se concentraram.

Vai a penetrao rompendo nuvens
e devassando sis to fulgurantes
que nunca a vista humana os suportara,
mas, varado de luz, o coito segue.

E prossegue e se espraia de tal sorte
que, alm de ns, alm da prrpia vida,
como ativa abstrao que se faz carne,
a idia de gozar est gozando.

E num sofrer de gozo entre palavras,
menos que isto, sons, arquejos, ais,
um s espasmo em ns atinge o climax:
quando o amor morre de amor, divino.

Quantas vezes morremos um no outro,
no mido subterrneo da vagina,
nessa morte mais suave do que o sono:
a pausa dos sentidos, satisfeita.

Ento a paz se instaura. A paz dos deuses,
estendidos na cama, qual esttuas
vestidas de suor, agradecendo
o que a um deus acrescenta o amor terrestre.