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Home » Poesias Sexta-Feira, 26 de Abril de 2019







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Adeus
por: Castro Alves

Adeus! P'ra sempre adeus! A voz dos ventos
Chama por mim batendo contra as fragas.
Eu vou partir... Em breve o oceano
Vai lanar entre ns milhes de vagas...

Recomeo de novo o meu caminho
Do lar deserto vou seguindo o trilho...
J que nada me resta sobre a terra
Dar-lhe-ei meu cadver... Sou bom filho!...

Eu vim cantando a mocidade e os sonhos,
Eu vim sonhando a felicidade e a glria!
Ai! Primavera que fugiu p'ra sempre,
Amor  escrnio!... Lutulenta histria!

Bem vs! Eu volto. Como vou to rico...
Que risos nalma! Que lauris na frente...
Tenho por c'roa a palidez da morte,
Fez-se um cadver  o poeta ardente!

Adeus! P'ra sempre adeus! Quando alta noite,
Encostado  amurada do navio...
As vagas tristes... Que nos viram juntos
Perguntarem por ti num beijo frio,
Eu lhes hei de contar a minha histria.
Talvez me entenda este sofrer do inferno
O oceano! O oceano imenso e triste,
O gigante da dor! O J eterno!

Fazia um ano. Era o dia
Do fatal aniversrio...
Ergui-me da cova escura,
Sacudi o meu sudrio...
Em meio aos risos e  festa
E s gargalhadas da orquesta,
Que eu tinha esquecido, enfim,
Tomei lugar!... Solitrio
Quis rever o meu Calvro
Deserto, tredo, sem fim!...

Sabes o que  sepultar-se
Um ano inteiro na dor...
Esquecido, abandonado,
Sem crena, ambio e amor...
Ver cair dia... Aps dia,
Sem um riso d'alegria...
Sem nada... Nada... Jesus!
Ver cair noite aps noite,
Sem ningum que nos acoite...
Ningum, que nos tome a Cruz?!

Ai! No sabes! Nunca o saibas!...
Pois bem; imagina-o s...
E ento talvez compreendas
A lenda escura de J.


II

Porm de sbito acordou do ergstulo
O precito, que ali jazia h pouco...
E o pensamento habituado s trevas
Atirado na luz...  Pssaro louco!

Vi de repente o passado
Erguer-se em face de mim...
A rir... a rir, como espectro,
De uma ironia sem fim.

A orquestra, as luzes, o teatro, as flores
Tu no meio da festa que fulgura
Tu! Sempre a mesma! A mesma! Tu! Meu Deus!
No morri neste instante de loucura...

Quebra-te pena maldita
Que no podes escrever
A horror de angstias e mgoas
Que ento me viste sofrer.

A mesma fronte que amei outrora!
O mesmo riso que me vira um dia!
O mesmo olhar que me perdera a vida!
A mesma, a mesma, por quem eu morria!

Que saudades que eu tenho do passado,
Da nossa mocidade ardente e amante!
Meu Deus! Eu dera o resto de existncia
Por um momento assim... Por um instante.

Mas no! Entre ns o abismo
Se estende negro e fatal...
 Jamais!   palavra escrita
No cu, na terra, no val.

Eu  j no tenho mais vida!
Tu  j no tens mais amor!
Tu  s vives para os risos.
Eu  s vivo para a dor.

Tu vais em busca da aurora!
Eu em busca do poente!
Queres o leito brilhante!
Eu peo a cova silente!

No te iludas! O passado
P'ra sempre quebrado est!
Desce a corrente do rio...
E deixa-o sepulto l!

Viste-me... E creste um momento
Qu'inda me tinhas amor!
Pobre amiga! Era lembrana,
Era saudade... Era dor!

Obrigado! Mas na terra
Tudo entre ns se acabou!
Adeus! ...  o adeus extremo...
A hora extrema soou.

Quis te odiar, no pude.  Quis na terra
Encontrar outro amor.  Foi-me impossvel.
Ento bendisse a Deus que no meu peito
Ps o germe cruel de um mal terrvel.

Sinto que vou morrer! Posso, portanto,
A verdade dizer-te santa e nua,
No quero mais teu amor! Porm minh'alma
Aqui, alm, mais longe,  sempre tua.